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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

LEITURAS MARGINAIS

O Zugzwang Europeu
Antonio Gil, Substack.

Desde a Segunda Guerra Mundial até aos dias de hoje, nenhum país da Europa teve de escolher um caminho específico. A Europa Oriental seguiu a URSS, a Europa Ocidental seguiu os EUA. Após o colapso do mundo soviético, todos seguiram os EUA, e o único que se recusou a fazê-lo (a Jugoslávia) teve o mesmo destino da extinta URSS. Com exceção da Sérvia, todas as antigas repúblicas da Federação Jugoslava já fazem parte ou estão em vias de se tornar parte da OTAN.

Cegos a guiar cegos, os líderes europeus – se é que a Europa tem alguma liderança dentro do seu continente – esqueceram tudo sobre a arte de escolher sabiamente os seus caminhos. Três gerações já não têm a prática de caminhar com sensatez, olhar para mapas e saber usar uma bússola.

Uma terrível ironia, considerando que foi essa mesma Europa que outrora zarpou em busca de caminhos até então desconhecidos, com muito menos meios de orientação do que os agora disponíveis para todos.

Durante várias décadas, pode-se dizer que os líderes europeus aproveitaram essa falta de preocupação com a direção para se dedicarem ao desenvolvimento interno de suas nações. Agora, nem mesmo isso: quando se esquece como andar, os músculos das pernas atrofiam e, portanto, podemos dizer que, neste momento, a Europa regrediu à idade de uma criança: está de quatro e a sua amplitude de movimento é francamente limitada.

Os recentes acontecimentos na Venezuela colocam a Europa na famosa situação de Zugzwang, um termo alemão que significa «forçado a jogar». A ideia por trás deste termo é que, em algumas posições, seria vantajoso para um jogador abdicar da sua jogada, porque mover qualquer peça beneficiaria sempre o seu adversário. No entanto, no xadrez, tal como em algumas situações da vida real, as regras não permitem que se «passe» a sua jogada.

Portanto, os países europeus ou apoiam os EUA em mais uma aventura colonialista ou condenam a agressão. No primeiro caso, ficarão sem argumentos se Trump decidir anexar a Gronelândia e – quem sabe? – o arquipélago dos Açores (não se esqueçam de que a maior fronteira dos EUA com um país europeu é marítima, neste caso com Portugal). E o Canadá, por que não? De certa forma, esse país ainda está sob a coroa britânica.

No segundo caso, os EUA poderiam muito bem retaliar dissolvendo a NATO e deixando a Europa lidar com a Rússia, que tem sido e continua a ser estupidamente antagonizada pela UE e pelo Reino Unido. Este cenário não é uma tragédia para os cidadãos comuns, mas para aqueles que atuam como governantes nos países europeus é aterrorizante.

Não admira, portanto, que os neurocratas europeus estejam confusos e enviem sinais contraditórios. Não há nenhuma boa opção na medida que a Europa será forçada a tomar.

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