ESTOU NO TERRENO – NA VENEZUELA
Craig Murray. Trad. O’Lima.
Estou em Caracas há 48 horas e o contraste entre o que vi e o que li nos media dominantes não poderia ser mais gritante.
Atravessei Caracas de carro, desde o aeroporto, passando pelo centro da cidade, até chegar ao elegante bairro de Las Mercedes. Na manhã seguinte, caminhei por todo o bairro operário de San Agustín. Participei no «festival dos afrodescendentes» e passei horas a conviver com as pessoas. Fui muito bem recebido e convidado a entrar em muitas casas, num bairro que, segundo dizem, é extremamente perigoso.
Depois disso, continuei a caminhar quilómetros pela área residencial e pelo centro da cidade, incluindo a Praça Bolívar e a Assembleia Nacional. Em todo este trajeto, não vi um único posto de controle, quer policial quer militar. Quase não vi armas; menos do que se veria num passeio semelhante por Whitehall. Não fui parado nenhuma vez, quer a pé ou de carro. Não vi absolutamente nenhum sinal da «milícia chavista», quer em áreas pobres, ricas ou centrais. Conduzi pelos redutos da oposição de Las Mercedes e Altamira e, literalmente, não vi nenhum polícia armado, nenhum miliciano e nenhum soldado. As pessoas estavam nas ruas, felizes e normais. Não havia nenhuma sensação de repressão.
Mais uma vez, ninguém me impediu ou perguntou quem eu era ou por que estava a tirar fotos. Perguntei às autoridades venezuelanas se precisava de uma autorização para tirar fotos e publicar artigos, e a resposta delas foi um perplexo «por que precisaria?».
Os postos de controlo militares para manter o controlo, os bandos itinerantes de grupos armados chavistas, todas as descrições dos media sobre Caracas hoje são inteiramente fruto da propaganda da CIA e de Machado, apenas regurgitada por um bilionário cúmplice e pelos media estatais.
Sabem o que não existe? A famosa «escassez». A única coisa que falta é a escassez. Há escassez de escassez. Não há escassez de nada na Venezuela.
Há algumas semanas, vi no Twitter uma foto de um supermercado em Caracas que alguém publicou para mostrar que as prateleiras estavam muito bem abastecidas. A foto recebeu centenas de respostas, alegando que era falsa ou que se tratava de um supermercado de luxo para os ricos e que as lojas para a maioria da população estavam vazias.
Por isso, fiz questão de ir aos bairros da classe trabalhadora, às lojas de bairro onde as pessoas comuns fazem as suas compras. Todas estavam muito bem abastecidas. Não havia espaços vazios nas prateleiras. Também visitei mercados ao ar livre e cobertos, incluindo um gigantesco mercado com mais de cem lojas que atendiam exclusivamente a festas de aniversário de crianças!
Todos ficaram muito felizes em me deixar fotografar tudo o que eu quisesse. Não se trata apenas de mantimentos. Lojas de ferragens, óticas, lojas de roupas e sapatos, produtos eletrónicos, peças de automóvel. Tudo está disponível livremente.
Há falta de moeda física. As sanções limitaram o acesso do governo venezuelano à impressão segura. Para contornar isso, todos fazem pagamentos seguros com os seus telemóveis através de códigos QR, usando a aplicação do Banco Central da Venezuela. Isso está muito bem estabelecido — até mesmo os vendedores ambulantes mais básicos exibem os seus códigos QR e recebem os seus pagamentos dessa forma. Consegue identificar os códigos QR nessas lojas de rua?
Para comprar um telemóvel venezuelano e um cartão SIM para a Internet, fui a um centro comercial especializado em telemóveis. Foi extraordinário. Quatro andares de pequenas lojas de telemóveis e computadores, todas repletas de produtos, organizadas em três círculos concêntricos de varandas em camadas. Esta foto mostra apenas o círculo interno. Comprei um telemóvel, um cartão SIM, microfones de lapela, um carregador portátil, uma extensão multissistema e um adaptador Ethernet para USB, tudo na primeira lojinha em que entrei.
O registo do cartão SIM foi rápido e simples. Há um bom sinal 4G em todos os locais onde estive em Caracas e, em alguns pontos, há sinal 5G.
«Relaxado» é um term que eu usaria para descrever os venezuelanos. Seria compreensível que houvesse paranóia, já que o país foi bombardeado pelos americanos há apenas três semanas e muitas pessoas foram mortas. Seria de se esperar hostilidade em relação a um velho gringo estranho vagando por aí e tirando fotos aleatórias sem explicação. Mas não senti nenhuma hostilidade, nem das pessoas nem das autoridades.
O festival africano foi instrutivo. Um evento comunitário e não um comício político, houve, no entanto, inúmeros gritos e cânticos espontâneos a favor de Maduro. O padre católico que dava a bênção nas festividades de repente começou a falar do genocídio em Gaza e todos rezaram pela Palestina. Figuras comunitárias e culturais faziam referências contínuas ao socialismo.
Este é o ambiente natural aqui. Nada disso é forçado. Chávez empoderou os oprimidos e melhorou as suas vidas de maneira espetacular, algo que tem poucos paralelos. O resultado é um genuíno entusiasmo popular e um nível de envolvimento da classe trabalhadora com o pensamento político que é impossível comparar com o Reino Unido de hoje. É a antítese da cultura vazia que gerou a Reforma.
Tenho muita desconfiança em relação aos jornalistas ocidentais que caemde paraquedas num país e se tornam especialistas instantâneos. Embora a contradição gritante entre a Caracas real e a Caracas dos media ocidentais seja tão extrema que posso mostrá-la imediatamente.
Praticamente tudo o que li de jornalistas ocidentais que pode ser verificado imediatamente – postos de controle, gangues políticas armadas, clima de medo, escassez de alimentos e bens – acaba por ser uma mentira absoluta. Eu não sabia disso antes de vir. Provavelmente você também não. Agora ambos sabemos.
Vivi durante anos na Nigéria e no Uzbequistão sob ditaduras reais e sei como elas são. Consigo distinguir a obediência taciturna do envolvimento real. Consigo distinguir a expressão política espontânea da programada. Isto não é uma ditadura.
Pelo que posso avaliar, sou, neste momento, o único jornalista ocidental na Venezuela. A ideia de que se deve realmente ver por nós mesmos o que está a acontecer, em vez de reproduzirmos o que os governos ocidentais e os seus agentes dizem que está a acontecer, parece estar completamente fora de moda nos nossos meios de comunicação social tradicionais. Tenho a certeza de que isso é deliberado.
Quando estive no Líbano há um ano, os grandes media estavam totalmente ausentes enquanto Israel devastava Dahiya, o Vale de Bekaa e o sul do Líbano, porque era uma narrativa que eles não queriam reportar. Vergonhosamente, a única vez que a BBC entrou no sul do Líbano foi pelo lado israelita, acompanhando as Forças de Defesa de Israel. A BBC, o Guardian ou o New York Times simplesmente não enviam correspondentes a Caracas porque a realidade é muito diferente da narrativa oficial.
Uma narrativa que as potências ocidentais estão desesperadas para que vocês acreditem é que a presidente interina Delcy Rodríguez traiu Maduro e facilitou a sua captura. Não é nisso que Maduro acredita. Não é nisso que o seu partido acredita, e não consegui encontrar o menor indício de que alguém acredite nisso na Venezuela.
O jornal interno dos serviços de segurança, o Guardian, publicou o seu quinto artigo fazendo essa afirmação e destacou-a como manchete de primeira página e uma grande notícia exclusiva. No entanto, todas as fontes da reportagem do Guardian continuam a ser as mesmas fontes do governo dos EUA ou apoiantes de Machado da rica comunidade de parasitas capitalistas exilados de Miami.
O que é interessante é por que os serviços de segurança querem que você acredite que Delcy Rodríguez e o seu irmão Jorge, presidente da Assembleia Nacional, são agentes dos EUA. A oposição ao imperialismo norte-americano definiu toda a vida deles desde que o pai foi torturado até a morte a mando da CIA, quando ainda eram bebés. Ambos são vocalmente a favor da Revolução Bolivariana e, pessoalmente, de Maduro.
O motivo óbvio dos EUA é dividir e enfraquecer o partido no poder em Caracas e minar o governo da Venezuela. Essa foi a minha interpretação. Mas também me foi sugerido que Trump está a insistir fortemente na ideia de que Rodríguez é pró-americana, tanto para reivindicar a vitória como para justificar a sua falta de apoio a Machado. Rubio e muitos como ele estão ansiosos por ver Machado no poder, mas a avaliação de Trump de que ela não tem apoio para governar o país parece, daqui, totalmente correta.
Uma variação disso que também me foi sugerida é que Trump quer retratar Rodríguez como pró-americana para tranquilizar as empresas petrolíferas americanas de que é seguro investir (embora o motivo exato para isso seja um mistério).
Enquanto isso, é claro, os EUA capturam, roubam e vendem petróleo venezuelano sem qualquer justificação no direito internacional. Os lucros são mantidos no Catar sob o controlo pessoal de Trump e estão a acumular um enorme fundo secreto que ele pode usar para contornar o Congresso. Para aqueles com boa memória, é como o caso Irão/Contras numa escala muitíssimo inflacionada.
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