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domingo, 2 de novembro de 2025

RAQUEL VARELA, O CANTO DO MELRO – A VIDA DO PADRE JOSÉ MARTINS JÚNIOR (16)


“— Continua crente, Padre Martins, ou ateu, como dizem alguns dos seus pares?

— Eu repeti a este bispo o que eu já tinha ouvido a um grande teólogo, ainda vivo, «os bispos não acreditam, porque não pensam nos outros, só pensam em si, na sua cátedra episcopal». Da mesma seita, os cardeais do Vaticano, salvo raras exceções, como Montini e Martini, não acreditam no Deus verdadeiro, acreditam no mundo, no seu posto dourado, nas vestes efeminadas, púrpura, roquetes com rendinhas, baby-dolls. Profissionalizar a Igreja ainda é pior do que profissionalizar a política e os clubes, as associações e os sindicatos, etc.

— É um estado não eleito; tem um banco em Roma, cardeais, embaixadores e propriedades no mundo inteiro — respondi-lhe.

— Na história milenar do Vaticano, o passado, os rituais, os insensos místicos, estonteantes, tipo ansiolíticos ou narcóticos sacros, as rezas desencarnadas, sim, o passado é uma autoridade inviolável. O cardinalato de hoje não pode divorciar-se do cardinalato medieval, a essência é a mesma, isto é, não tem essência nenhuma, é anticristã e antievangélica.

— E as cerimónias de entronização de um cardeal? — questionei eu.

— Tem tudo de artificial, burguês e aristocrático. Até tem direito a púrpura, barrete e, pasme-se, anel de fino quilate. E brasão de armas!...(…)

— Está certo, são os chacais de hoje. E o povo, Ó! Jesus! Como podemos tolerar isto?! Por mim, mantenho a interpretação que mais de sessenta anos de padre me ensinaram. O Vaticano é o muro da vergonha que esconde e não deixa ver a verdadeira face de Jesus de Nazaré. E a púrpura cardinalícia é o betão ciclópico que despudoradamente reforça esse muro.

— São eles que elegem o novo papa — recordei-lhe.

— São senadores ao estilo americano, representam os milhares de milhões de católicos do planeta Terra. Com uma diferença abissal. Portam-se como deputados do povo no Vaticano, mas não foram eleitos por nenhum povo. A tanto chega a efabulação narcísica de um teatro de figurantes principescos, uma variante de paranoia democrática que nenhum deles indaga nem contesta. Até dizem que é o Espírito Santo quem lhes sopra o nome do feliz contemplado naquela misteriosa assembleia a que dão o etéreo nome de «conclave», isto é, «fechados à chave».

Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, pp 227-228.

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