"A revolta estendeu-se aos militares republicanos, que se ergueram contra a ditadura. Era agora a revolta da Madeira. A 24 de abril de 1931, sob o comando do ministro da Marinha, partia de Lisboa a bordo do
paquete Niassa — o mesmo nome do navio que anos depois levaria o Padre Martins para a guerra colonial — um contingente militar para derrotar a revolta da Madeira. Desembarcaram no Caniçal, onde, rezam as crónicas, o pároco, por absurda coincidência também chamado Martins, ensinaria as tropas expedicionárias de Lisboa qual a vereda mais certeira para chegar a Machico. O meu avô esteve dias escondido nas Feiteiras, entre poios e casebres de amigos, até conseguir fugir para o Funchal.
A 2 de maio, os revoltosos foram derrotados. Entre eles o general Sousa Dias, que fugiria com mais homens para Londres a bordo do HMS London, que se encontrava na Madeira para «proteger os interesses» dos ingleses. Lá seguia o meu avô, escondido por camaradas marinheiros. Alguns deles alistar-se-iam depois para defender a revolução espanhola, lutando na guerra civil ao lado de Buenaventura Durruti, chefe anarquista, cujo funeral – depois de morto pelas costas – foi o maior de sempre no Estado espanhol. Lá em casa, em Londres, havia dois heróis. Tolstoi, em busto de cerâmica. Durruti, numa fotografia a preto e branco, com olhos de águia, olhando as câmaras de frente."
Raquel Varela, O canto do melro – A vida do Padre José Martins Júnior – Bertrand 2024, p 53.

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