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quinta-feira, 23 de maio de 2024

BICO CALADO

  • “Não cessa de me surpreender a indiferença dos nossos eleitos políticos, do Governo e da oposição, mergulhados em trivialidades, perante a questão existencial da paz e da guerra. A maior ameaça à nossa existência coletiva reside no silêncio e cumplicidade de quem nos governa e representa, perante aqueles, ao nosso lado, que alimentam o rastilho aceso à espera de explodir em todo o Velho Continente. (...) Contudo, do lado ocidental prevalece um desordenado belicismo. Na Suíça vai realizar-se, sem a Rússia, uma provocação disfarçada de Conferência de Paz. Os EUA conseguiram desbloquear um novo e enorme empréstimo. Mais armas vêm a caminho. A “ambiguidade estratégica” de Macron parece traduzir-se no envio de efetivos da Legião Estrangeira para a frente ucraniana. Há dias, num lapsus linguae, o general norte-americano Bryan Fenton confirmou a presença de tropas especiais britânicas no campo de batalha. Cameron, encorajou Kiev a usar os mísseis britânicos contra alvos no interior da Rússia. Na Alemanha, o chanceler Scholz parece ser o único obstáculo ao recuperar da incendiária ideia de Zelensky, que colocaria a NATO a fechar o espaço aéreo ucraniano. No dia 13, falando para jovens, Jens Stoltenberg, SG da NATO, condicionou, num exercício de chantagem cruel, o apoio do Ocidente à reconstrução da Ucrânia, à exigência de este país “prevalecer” sobre a Rússia. Em síntese, os aliados portugueses da NATO, têm como política a intensificação da guerra. Será que o PR, o PM e a AR não compreendem a loucura onde isto nos irá conduzir? A Ucrânia está a ser destruída, desde fevereiro de 2022, porque os EUA e a UE pensaram que a Rússia fazia bluff quando advertia que Kiev na NATO era uma linha vermelha. Se essa lição não foi aprendida e, em vez da diplomacia, insistirmos em guerrear a Rússia diretamente, não tenho dúvidas de que 2024 poderá ser o último ano da vida de muitos nós. Portugal podia e deveria ser uma voz de moderação dentro da NATO. O que nos resta de soberania alimenta-se da capacidade de não cortarmos laços com um mundo, que fomos pioneiros a construir. O Governo e o Parlamento portugueses não têm nada a dizer sobre esta estulta estratégia da NATO? Apoiamos uma via de ação que, a ter sucesso, poderá fazer do nosso país um dos alvos mais prováveis de um ataque (não teríamos, ao contrário de Paris e Londres, meios de retaliação)? Será que a nossa democracia, nascida da coragem dos militares, irá perecer pela cobardia do poder civil? Talvez fosse bom meditar nas palavras do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que em 2016 acabou com a longa Guerra Civil que opunha o Estado às FARC. Reagindo às críticas dos que o acusavam de não levar a julgamento os líderes dos guerrilheiros, ele afirmou: ‘A paz perfeita não existe, porque a paz perfeita implica a justiça perfeita e a justiça perfeita torna impossível a paz. É uma paz imperfeita, mas sempre é melhor uma paz imperfeita que uma guerra perfeita.’” Viriato Soromenho Marques, Os paladinos da guerra perfeita - DN 18mai2024.
  • “(…) Na década de 1960, o movimento estudantil anti-guerra era maior nos EUA, mas tornou-se global. Atualmente, o padrão parece ser o mesmo. Nos EUA, houve 140 campus palcos degreves ou concentrações de estudantes em 45 estados. A ação estudantil já se estendeu a mais de 30 países em todo o mundo. (…) Em 1968, o movimento foi estimulado pela ofensiva vietnamita do Tet, tal como hoje é motivado pela oposição ao ataque israelita a Gaza. Em ambos os casos, o sucesso militar favoreceu as potências coloniais e os seus apoiantes, mas em ambos os casos, a vitória política foi conquistada pela resistência. Tet virou a opinião pública mundial contra a guerra dos EUA no Vietname, tal como o ataque a Gaza levou ao isolamento político do Estado israelita na cena mundial. (…) Os movimentos da década de 1960 opuseram-se à corporativização e à estandardização da educação, ao modelo de ensino de linha de produção fabril. Mario Savio, líder dos estudantes de Berkeley nos anos 60, disse que estavam a reagir contra o ‘paraíso dos consumidores cromados’ que queria ‘que crescêssemos para sermos crianças bem comportadas. Mas uma minoria importante... mostrou que preferia morrer a ser padronizado, substituível e irrelevante". Os estudantes de hoje, depois de mais de uma geração de cortes e de comercialização no sector do ensino superior, não estão a reagir contra um paraíso de consumo, mas viram, ainda mais completamente do que a geração dos anos 60, o que é um sistema universitário totalmente comercializado e de modelo empresarial. Sabem muito bem o que é serem tratados como ‘normalizados, substituíveis e irrelevantes’. Mas há também diferenças importantes. Nos EUA, na década de 1960, o movimento foi em parte impulsionado pela oposição ao recrutamento. O movimento atual não tem esse estímulo imediato. No Reino Unido, o movimento contra a Guerra do Vietname era dominado por estudantes, que constituíam mais de metade das grandes marchas contra a guerra. Não é esse o caso atualmente. O movimento de massas mobilizou-se a uma escala sem precedentes durante oito meses antes de os estudantes entrarem em ação no Reino Unido. No Reino Unido, a maior das manifestações contra a guerra do Vietname, em 1968, teve 100 000 pessoas, menos do que a mais pequena das repetidas marchas contra a Palestina, que teve 150 000 pessoas, e mais pequena do que a maior, que teve 800 000 pessoas Além disso, em 1967 e 1968, houve apenas duas marchas nacionais de grande escala no Reino Unido. Nos últimos oito meses, registaram-se 14 manifestações nacionais a favor da Palestina. O movimento estudantil de 2024 no Reino Unido está provavelmente mais difundido do que em 1968, mas a forma de ação ainda não é tão radical como em 1968. Nessa altura, os estudantes ocupavam edifícios universitários, o que constituía uma perturbação direta da capacidade de funcionamento da faculdade. Os atuais acampamentos não atingem esse objetivo. Em 1968, o jornal revolucionário Black Dwarf, apoiado pelo mais proeminente ativista contra a Guerra do Vietname, Tariq Ali, referia que a Universidade de Essex tinha estado ‘num estado de desordem parcial ou total’ de fevereiro a junho. A atual ação dos estudantes teria de aumentar consideravelmente para que tal afirmação pudesse ser feita em relação a qualquer universidade atual. Há ainda uma outra diferença, mas que, numa análise mais atenta, acaba por ser uma semelhança. Em 1968, no Reino Unido, o Partido Trabalhista estava no governo e Harold Wilson era primeiro-ministro. Quando Wilson discursou na Câmara Municipal de Sheffield, em janeiro de 1968, cerca de 3.000 pessoas cercaram o edifício gritando ‘Wilson rua!’, bombardeando a polícia que defendia o primeiro-ministro com ovos e tomates. Em março do mesmo ano, um ministro trabalhista foi insultado na Universidade de Manchester e, uma semana depois, o carro do Secretário da Defesa Denis Healey foi cercado por estudantes em Cambridge. Hoje, como é óbvio, os conservadores estão no poder. No entanto, o Partido Trabalhista de Keir Starmer está tão próximo do Governo do Primeiro-Ministro Rishi Sunak no que se refere à Palestina e a muitas outras questões, que há uma raiva generalizada contra o seu partido, uma raiva que quase parte do princípio de que ele não será diferente dos que estão atualmente no poder se ganhar, como se espera, as próximas eleições gerais. (…) Se o movimento estudantil não é ainda tão proeminente ou tão radical como era nos anos 60, está muito menos isolado. Na década de 1960, nos EUA, o movimento Black Power foi uma componente significativa de uma radicalização à escala da sociedade. Mas, nessa altura, não havia um círculo eleitoral comparável no Reino Unido. Atualmente, a comunidade muçulmana contribui de forma muito mais significativa para as mobilizações palestinianas. (…) o apoio aos palestinianos é generalizado a toda a sociedade. Duas em cada três pessoas no Reino Unido querem um cessar-fogo em Gaza, a mesma exigência que está nos cartazes das manifestações palestinianas. Os estudantes não são uma vanguarda, porque sectores muito mais vastos da sociedade já têm a mesma atitude em relação à luta palestiniana que eles, e demonstraram uma capacidade notável para se mobilizarem de forma consistente e repetida ao longo de meses numa escala de massas. Essa amplitude de ação é nova.” John Rees, A diferença crucial entre os protestos estudantis em Gaza e no Vietname – Brave New Europe.
  • Investigadores de grupos de defesa das liberdades civis enviaram ao Facebook anúncios claramente criados com recurso a inteligência artificial racista, com o objetivo de espalhar desinformação e fomentar a violência religiosa, que a empresa publicou sem pestanejar. (…) a empresa concordou com a publicação de anúncios que incitavam as pessoas a "queimar os vermes", intencionalmente escritos com linguagem etno-supremacista, enquanto outros com a bandeira do Paquistão apelavam aos muçulmanos para "eliminarem os hindus da Índia". (…) Para a Meta, os anúncios são receitas e a ideia de restringir ou não aceitar incitamentos à violência durante uma eleição é um anátema. A suposta política de autorização e supervisão de conteúdos do Meta é uma mentira, uma medida sem sentido que utiliza para tranquilizar as entidades reguladoras, tal como a ideia de que a empresa abdicaria das receitas provenientes da sua publicação.
  • Enrique Dans, A Meta ganha dinheiro com o incitamento à violência: como é que se safa? - Medium.
  • Francisco Conceição supera pai e ganha bilhete para o Europeu Extremo portista, de 21 anos, é a grande novidade nos eleitos para o torneio na Alemanha. Treinador do F. C. Porto jogou o Euro 2000 quando tinha 25 anos. Capa do JN de 22mai2024. Resta saber se vai bater o palmarés do pai, por exemplo, marcando um hat-trick.
  • Forças israelitas ajudam colonos a atacar camiões com alimentos. Civis que bloqueiam veículos com bens essenciais para Gaza estão a ser informados sobre a sua localização por polícias e militares. JN 22mai2024.

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