Newsletter: Receba notificações por email de novos textos publicados:

sábado, 29 de outubro de 2022

Bico calado

  • «(...) Nas últimas semanas, uma iniciativa do governo popularizou um novo termo - nómada digital. Parece que a expressão designa viajantes ricos, que circulam pelo mundo em teletrabalho bem remunerado. A notícia é que António Costa quer atrair estas pessoas para Portugal acenando com benesses fiscais. O principal resultado será ainda mais pressão para a subida dos preços da habitação nas cidades, onde quem recebe um salário médio já não consegue pagar uma casa. Há anos que o Partido Socialista insiste em políticas deste tipo - do escandaloso regime dos vistos gold (que dá acesso a cidadania portuguesa a ricos estrangeiros que cá comprem casas acima de meio milhão de euros) até ao regime para residentes não-habituais (que oferece descontos nos impostos a reformados estrangeiros que comprem casa em Portugal). Além destes segmentos privilegiados, quem ganha com estas medidas é o ramo imobiliário, os fundos e especuladores que assim mantêm preços em permanente subida. Perde o Estado, que abdica de receita fiscal, perdem os jovens expulsos das cidades e perdem os trabalhadores com salários engolidos pelos custos da habitação. Enquanto assim abre as portas a privilegiados de todo o mundo, o governo despreza outros deslocados que nos batem à porta. Exemplar é o caso dos imigrantes timorenses que têm desembarcado em Lisboa, atraídos por redes de tráfico com as quais se endividam, depois abandonados sem trabalho e a viver há semanas ao relento e sem apoio. (...) As regras cruéis do acolhimento em Portugal prejudicam também quem nasceu aqui, prejudicam a maioria da população e sobretudo quem menos tem. É que, em vez de atrair “nómadas digitais” - nem que seja a custo de despejar uma cidade inteira para que pousem aqui nos seus périplos endinheirados -, do que precisamos mesmo é de receber bem os imigrantes que vêm para fazer este país, que podem ajudar Portugal a reverter o seu envelhecimento e a sustentar a proteção social. Portanto: se optarmos por acolher com humanidade, não daremos apenas prova de compaixão, mas também de racionalidade no interesse deste país: se deixamos que sejam maltratadas as pessoas de quem precisamos, os próximos maltratados seremos nós.» Jorge Costa, Como acolhes? Dir-te-ei quem ésO Regional. Via Esquerda.
  • Trabalhadores estrangeiros contratados por empreiteiros da defesa em pelo menos quatro bases militares dos EUA no Golfo Pérsico estão presos nos seus empregos por práticas abusivas de emprego que, segundo eles, os impedem de regressar a casa ou mesmo de procurar melhor trabalho na região, afirmam mais de 30 trabalhadores atuais e antigos. Muitos dos milhares de migrantes empregados nas bases do Golfo Pérsico viram os seus passaportes confiscados, foram sobrecarregados com dívidas onerosas após o pagamento de taxas de recrutamento ilegais ou foram-lhes negados "documentos de libertação" exigidos pelas leis locais, bem como registos judiciais e documentos governamentais que mostram que tais abusos, que parecem violar os regulamentos dos EUA, têm sido repetidamente assinalados nos últimos anos. Katie McQue, ICIJ.

  • «As exportações britânicas de armas para a Junta tinham um precedente imediato: os aviões fornecidos pela Grã-Bretanha tinham sido utilizados no golpe para atacar o palácio do Presidente Allende e a sua residência. O embaixador escreveu que durante o golpe 'Hawker Hunters arrasaram com os seus foguetes aéreos, dirigidos com notável precisão para o palácio, que foi severamente danificado e incendiado'. Com a Junta no poder, os políticos britânicos deixaram claro que os contratos de armas acordados com Allende seriam honrados, envolvendo 8 Hawker Hunters e outro equipamento no valor de mais de 50 milhões de libras esterlinas. Mas foram mais longe, dizendo, segundo os ficheiros secretos, que "vamos querer em devido tempo aproveitar ao máximo as oportunidades que se proporcionarão pela mudança de governo". As expetativas eram de novos pedidos de armas por parte da Junta, mas 'gostaríamos de tratar disso o mais discretamente possível durante algum tempo' devido à oposição pública generalizada. O governo Heath contrariou os apelos do partido trabalhista para impor um embargo de armas ao Chile: todos os Hawker Hunters tinham sido entregues até à altura das eleições gerais de 1974.» Mark Curtis, Unpeople, Britain’s secret human rights abuses – Vintage 2004, pp 272-273.

Sem comentários: